Sobre o que passa em uma cabeça as três da madruga de um domingo/segunda em La Coruña. Sóbrio e sem sono. Sem edição, revisão ou correção... um tanto filosófico e pseudopsicológico.
| Everton Mossato
Nunca pensei que seria fácil, muito menos difícil. Nossa mente tem muita força e quase nunca nos damos conta disso. Quando tomei a decisão de fazer um intercâmbio não sabia o que ia enfrentar, imaginava algumas coisas, mas nada de muito concreto.
Fui inocente de não tentar olhar ao meu redor, nos menores atos, era isso o que ia enfrentar fora de Curitiba, os pequenos detalhes, o cotidiano. Porque o cotidiano é que importa, somos dominados e vivemos em função dos atos do dia-a-dia. É simples, mas isso ninguém quer ver, ignoramos o simples, gostamos de sonhar e imaginar o mais belo e luxuoso, o status. O que podemos contar e nos orgulhar diante dos que nos cercam.
Fui inocente de não tentar olhar ao meu redor, nos menores atos, era isso o que ia enfrentar fora de Curitiba, os pequenos detalhes, o cotidiano. Porque o cotidiano é que importa, somos dominados e vivemos em função dos atos do dia-a-dia. É simples, mas isso ninguém quer ver, ignoramos o simples, gostamos de sonhar e imaginar o mais belo e luxuoso, o status. O que podemos contar e nos orgulhar diante dos que nos cercam.
Um domingo qualquer ao lado da minha namorada, deitados na cama, um abraço, um beijo que ignoro ou não retribuo, rizadas, pequenas discussões sem razão, ver um jogo na TV com meus irmãos e meu pai, conversar com minha mãe na cozinha enquanto ela lava uma louça ou faz alguma coisa pra minha sobrinha comer, fazer um cachorro de massa de modelar com minha sobrinha, “que rico tío”, diriam os espanhóis. Agora, acompanhado apenas das lembranças e sem alguém que conheça ha mais de dois meses ao redor, sinto falta de algo, ou melhor, sinto que deveria ter algo ao redor. O barulho da TV em português em qualquer merda que a Globo transmita... essas efemeridades que nos acompanham a cada minuto se transformam em agradáveis lembranças e saudade, transformam-se em coisas importantes.
O que mais me falta? Um trabalho é claro, mas por quê? Lembro que olhava páginas no google a esmo. Palavra chave: Coruña, empleo ou trabajo em coruña. Via as listas de ocupações e seus pré-requisitos. A cada clique uma viagem mental, bandeja na mão e avental ao lado de uma mesa? Seria eu um garçom nas entre o estudo e algum passeio? Talvez um capacete, uma marreta, bota? Quem sabe um pião ou “oreia seca”? Me divertia pensado, por vezes compartilhava o momento e ria mais ainda, não sei do ria... seria felicidade, deboche de si mesmo? Claro que não da ocupação, trabalho é trabalho. Mas me lembro há alguns anos falando com amigos sobre sair do país e nunca me via saindo pra trabalhar, nunca me via saindo na verdade. Agora me culpo por estar aqui e não ter uma ocupação qualquer. Não é só dinheiro, tinha consciência de que me menos de seis meses não poderia fazer uma fortuna e mudar minha vida, não a vida financeira. Vim para a Europa pra estudar, mas agora percebo que nunca fui um estudante antes e não sei como é ser um, não um de verdade. Sempre trabalhei, nunca consegui administrar corretamente meu dinheiro, mas sempre tive uma responsabilidade, uma ocupação. O que faz? Tá trampando com o quê? Isso é normal, creio que a que nos dedicamos diz algo do que somos. Ao menos num primeiro momento. Sinceramente não entendo o que me incomoda nessa situação... talvez apenas a falta do hábito. Nunca fiquei sem trabalhar tanto tempo desde que parei de estudar, e mesmo quando tinha... sei lá, uns quatorze anos, já ajudava meu velho com suas coisas. Na pequena lanchonete perto de casa ou embalando salgadinho no fundo do quintal. Creio que isso marcou de alguma forma minha personalidade, creio que falo de mim como se fosse o único nessa situação, mas todos somos iguais, temos sempre que estar ocupados, produzindo, ganhando dinheiro... o mundo quer assim não? Mas um momento. Quando comecei a ler alguma coisa do comunismo, a visão de Marx sobre o Capitalismo e a maldita mais valia ou a porra da reserva de mercado eu não queria mais ser um operário. Não queria mais ter essa culpa de não trabalhar, de não ser uma peça nessa linha de montagem. Lia versos de Leminski e compartilhava sua visão critica do curitibano, no sentido de que age como um operário mesmo fora da fabrica, seus horários, sua postura. Mas novamente pergunto: o que está acontecendo comigo que não me basta a alcunha de estudante? Não sei ter tempo de sobra, não sei ver o mar e curtir o momento sem me sentir culpado. Mas do quê? De fato de quem eu amo não possa compartilhar isso comigo? Creio que sim, mas não só isso. Acho que o comportamento do estudante brasileiro, que é o trabalhador, o peão brasileiro esta enraizado em minha postura. (que merda de parágrafo grande, foi mal)
Quando acordava seis da manhã e dormia meia noite não me sentia culpado. Culpado por ser um escravo do sistema. Acho que não me sentia culpado porque não dava tempo de pensar nisso. O sistema me consumindo tanto que eu já não sabia o que era. Era um cargo, era uma nota, era um elogio um uma indiferença. Não tinha gostos e vontade. Fazia coisas pensando no futuro. Vivia do futuro... mas agora o futuro chegou e o que faço? Inevitável a imagem de um cachorro correndo atrás da roda de um carro. O carro para e o cachorro com cara de idiota não sabe o que fazer. Me sinto meio assim. Misture saudade + lembranças de decisões muito erradas + desempregado + tempo pra pensar nisso tudo = um merda!
Creio que seja exagero, e pode ser. Mas me diga uma coisa que não possa mudar quando juntamos argumentos e desejo de que seja outra.
Um texto com emoção sempre começa com parágrafos longos e termina sem conteúdo. É como nos sentimos depois de desabafar não? Mais leves. Por fim, penso que há muitas coisas novas acontecendo na minha vida e creio que seja normal não entendê-las por completo. Passado a fase de adaptação, que sinceramente nunca acaba por completo, quero voltar a rotina que sempre vivi. O que é uma burrice, então enquanto isso fico no conflito entre virar um escravo de mim mesmo aqui na Europa, estudando e trabalhando e não tendo tempo pra muito mais coisa... ou relaxar, curtir o momento e que se foda tudo! Na verdade há algo que foge a minha decisão, e me remeto novamente a um sentimento de culpa ou incapacidade. O fato de que estou tentando trabalhar e não consigo, então não resta muita escolha. Tenho que relaxar e curtir, porém leia curtir com um sentimento de culpa, porque quem me sustenta aqui novamente são meus pais e vim aqui buscar, entre outras coisas minha independência, ou alguma coisa próximo a isso.
Vejo que este texto se encaminhou para um dialogismo... ou melhor, se resumiu em alguns conflitos. Sendo assim, nessa conversa comigo mesmo não consigo me convencer de que estou me esforçando o suficiente ou mesmo tomando o caminho certo no que diz respeito a trabalhar. Não sei se sou mais incapaz ou mais positivo. A ideia latente no que diz respeito a economia europeia se resume em uma palavra: CRISE. Pois bem, se tomo este ponto de vista me coloco numa situação cômoda e consigo dormir, pois sou apenas mais um sem emprego entre os europeus fodidos na saída de uma crise econômica mundial. Porém como gosto de ser otimista penso: foda-se que se tem crise ou não, a vida continua e não quero ser a porra de um gerente, chefe, encarregado, quiçá ter um posto medíocre que me dê um futuro de comercial de margarina. Apenas quero uns euros pra tomar uma gelada e pagar uma passagem de avião em promoção. E para isso qualquer cargo que um espanhol pensaria duas vezes antes de fazer eu faço. E também foda-se a crise por não quero empregar todos os ‘parados` de Coruña, só preciso de uma misera vaga em qualquer lugar que não hesite em me mandar embora e contratar um turco pra continuar varrendo o chão ou descascando as batatas.
Duas laudas estão bem pra hoje. Até a próxima galera!
Penso que devo escrever os bons e os maus sentimentos.
Os bons porque não sou egoísta e quero compartilhar minha satisfação.
Já os maus... ah, os maus porque ninguém gosta de se foder sozinho né?
"Hay de endurecer sem perder a ternura", foda né parceiro se tivesse levado o violão tinha emprego, fica andando da rua da cidadania até o centro e depois para casa... já fizemos coisas pior a única diferença é o idioma da mina pergutando "?tienes expériencia em lo que cabrón?", açougue!!!! você tem agilidade, agente te liga qualquer coisa, abraço desiste não parceiro, desiste não!!!
ResponderExcluirE aí marinho fmz... tem violão aqui no meu ap mano, e os gringo adoram música brasileira... rsrs é uma boa idéia.
ResponderExcluir...rua da cidadania, pode cre... tava vendo o noticiário, tem muitas dessas por aqui, e a fila tá grande... são mais de 4 milhões de parados aqui na espanha... hehe foda.
hasta la vitoria siempre... desistir, eu? jamais
valeu mario, um abraço mano