Quando parar não é uma escolha
por Everton Mossato
A aposentadoria é a meta da maioria das
pessoas. O tempo de serviço ou a idade são pré-requisitos para quem procura a
Previdência Social (INSS). Outros optam pendurar
as chuteiras pela Previdência Privada. Mas, independente da maneira que a
conquistam, a aposentadoria representa a quebra de um vínculo com a antiga
vida. Um novo ciclo que nasce, o passado se dissipa em boas e más lembranças,
mas fica lá... no passado, apenas como lembranças.
Zé, O Especialista, protagonista em O Seminarista, também almeja esta nova etapa em sua vida. Porém, sua profissão não é comum, não tem carteira assinada e muito menos seguro de vida. Nela o passado insiste em permear o presente e o persegue como uma sombra.
Rubem Fonseca narra em O Seminarista o momento em que Zé, um matador profissional, decide abandonar sua carreira. Porém, ao “dar entrada em sua aposentadoria” o Especialista não encontra um guichê para apresentar sua papelada, e sim uma série de desafios e Despachantes dispostos a transformá-lo em um arquivo-morto.
A Beretta
não demora a aparecer em O Seminarista. Nas
mãos do Especialista a arma de fogo vira ferramenta de trabalho comum, assim
como um serrote para o marceneiro ou giz para o professor. O protagonista é um
leitor contumaz, apreciador de bons vinhos, rock e cinema. Também é o um
profissional de ética, se é que se pode ter nesse mundo de morte por encomenda,
que mata sem remorso e sem ódio. “Nunca me interesso em saber quem é o freguês,
acho melhor assim. Nem leio o jornal por esse motivo. Gosto de ver filmes.
Também gosto de ler. Principalmente poesia” (O seminarista, pg. 13).
Este excesso de profissionalismo coloca Zé em
uma posição delicada frente aos acontecimentos que desencadeiam a partir do
momento em que decide se aposentar. Com um curriculum invejável e um desempenho
impecável, Zé, causa desconforto em seus pares, que decidem aposentá-lo
definitivamente. Sua ética o mantém cego e alienado. Não sabe quem é seu
inimigo e agora se vê do outro lado da porta, de caçador vira a caça.
As armas, a morte e o suspense são, obviamente,
acompanhados pelo sexo. Kirstem é o par do Especialista. Juntos os dois trazem
ao leitor diálogos recheados de referências do cinema e da literatura. Kirstem
e Zé também protagonizam cenas, digamos, obrigatórias aos personagens de Rubem
Fonseca. Encontros em cafés com direito a endereço em guardanapos de papel,
fugas mirabolantes, jantares em restaurantes aconchegantes, à meia luz e noites
de sexo sem fim.
Rubem Fonseca é mestre da narrativa. Seus
livros são verdadeiros roteiros de cinema. O habitual ritmo de tensão e
expectativa prendem a atenção do leitor da primeira a ultima página. A trama
imprevisível e a linguagem direta, que emana das ruas, conduz o romance. Características
estas que não são novidade quando falamos de Rubem Fonseca. Porém, o estilo do
autor não deve ser visto de forma pejorativa, mas sim como a certeza de mais
uma grande narrativa.
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O Seminarista
de Rubem Fonseca
181 páginas
Editora Agir
2009
de Rubem Fonseca
181 páginas
Editora Agir
2009

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